Redemocratização do Brasil após a Ditadura: etapas do processo e resumo
A redemocratização do Brasil entre 1974 e 1988 consistiu em uma transição gradual do regime militar para a democracia, impulsionada pela abertura política, pela mobilização da sociedade civil e pela Constituição de 1988.
Diretas Já: movimento importante para a redemocratização do Brasil
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Introdução: o que foi esse processo?
A redemocratização do Brasil entre 1974 e 1988 configurou um percurso de restauração institucional após o ciclo autoritário iniciado em 1964. O processo ocorreu de modo progressivo e controlado pelos próprios militares, especialmente sob a presidência de Ernesto Geisel e, posteriormente, de João Figueiredo. A transição dialogou com pressões da sociedade civil, reorganização partidária, mobilização de movimentos sociais e disputas entre grupos defensores da permanência do regime e setores que buscavam restaurar a ordem democrática. Esse período marcou a retomada da participação política, a reconfiguração do espaço público e a reconstrução das estruturas normativas do Estado.
Situação política e social durante o processo
Ao longo da década de 1970, a ditadura enfrentou desgaste econômico, como a crise do petróleo de 1973 e o endividamento externo crescente, o que fragilizou o modelo de desenvolvimento e reduziu a legitimidade do regime. Em paralelo, surgiram novas formas de mobilização da sociedade civil, com organizações estudantis, entidades religiosas e intelectuais que reagiam ao autoritarismo. A partir de 1974, a abertura política passou a ganhar forma, inserida no discurso militar de uma transição lenta, gradual e segura.
A abertura política entre 1974 e 1985
A abertura política tinha como objetivo flexibilizar o aparato repressivo sem comprometer o controle das Forças Armadas sobre a transição. Sob a liderança de Ernesto Geisel, ocorreram medidas como a revogação gradual do Ato Institucional n.º 5, promulgado em 1968, e mudanças no sistema eleitoral. Entretanto, esse processo não significou ausência de repressão, como evidenciado pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog em 1975, fato que ampliou o desgaste da ditadura. Durante o governo João Figueiredo, o regime intensificou a liberalização política, autorizando o retorno da atividade partidária mais ampla e permitindo maior atuação de movimentos sociais.
A Lei da Anistia de 1979
A Lei da Anistia permitiu que cidadãos perseguidos pelo regime retornassem ao país. Libertou presos políticos e possibilitou reinserção social de indivíduos afastados da vida pública desde meados da década de 1960. Contudo, seu caráter abrangente estendeu anistia também a agentes do Estado envolvidos em violações de direitos humanos, o que mais tarde gerou debates sobre memória, verdade e justiça.
A atuação dos movimentos sociais e das novas organizações da sociedade civil
A atuação dos movimentos sociais e das novas organizações da sociedade civil ganhou força especialmente entre o final da década de 1970 e o início da década de 1980, quando a abertura política permitiu maior articulação de grupos antes reprimidos pelo regime. Entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil passaram a exercer papel central na denúncia de violações de direitos humanos e na defesa das liberdades civis. Nesse mesmo contexto, sindicatos renovados, impulsionados por novas lideranças e por grandes greves operárias entre 1978 e 1980, ampliaram sua capacidade de mobilização e evidenciaram o desgaste do autoritarismo perante setores populares e trabalhadores urbanos.
Ao lado dessas instituições, movimentos estudantis reorganizados, associações de moradores, grupos de defesa dos direitos humanos e organizações voltadas à luta pela terra passaram a compor uma esfera pública mais diversificada e ativa. Essas iniciativas foram fundamentais para pressionar o regime a acelerar a abertura política, fortalecer as campanhas por anistia, sustentar o movimento Diretas Já e inserir novas pautas sociais no debate que culminou na Constituição de 1988. A presença desses movimentos contribuiu para redefinir a cultura política brasileira, estimulando práticas participativas e ampliando a noção de cidadania no período de transição democrática.
O movimento Diretas Já entre 1983 e 1984
A campanha Diretas Já representou o momento mais intenso de mobilização popular desde 1964. Comícios em grandes cidades reuniram milhões de pessoas que reivindicavam eleições diretas para presidente. O movimento uniu diferentes setores sociais e políticos, mas não conseguiu aprovar a emenda constitucional que instituiria o voto direto, rejeitada pelo Congresso em abril de 1984.
A eleição indireta de 1985
A eleição presidencial de 1985, realizada pelo Colégio Eleitoral, resultou na vitória de Tancredo Neves. A escolha simbolizou a derrota do bloco governista e o encerramento da hegemonia militar. No entanto, a morte de Tancredo antes da posse levou José Sarney à presidência, consolidando a transição para um governo civil após 21 anos de autoritarismo.
O governo Sarney e a reorganização institucional
O governo iniciado em 1985 enfrentou desafios econômicos e institucionais, como inflação elevada e fragilidade estrutural do Estado. Nesse período iniciou-se a reorganização institucional, com debates sobre reformas sociais, direitos civis e participação política, questões que seriam consolidadas no texto constitucional.
A Constituição de 1988
Promulgada em 5 de outubro de 1988, a Constituição recebeu o título de Constituição Cidadã por reforçar direitos sociais e princípios democráticos. Restabeleceu o voto direto, ampliou liberdades civis, fortaleceu poderes republicanos e instituiu mecanismos de fiscalização e controle. Ao consolidar um novo marco jurídico, encerrou formalmente a transição iniciada em 1974.
Impactos de longo prazo
A redemocratização restaurou a autonomia dos poderes republicanos e fortaleceu o sistema partidário, permitindo maior participação social. Fomentou debates sobre memória histórica e justiça de transição, que permaneceram presentes nas décadas posteriores. Esse processo configurou a base institucional que sustenta o Estado democrático de direito, revelando a importância da mobilização social e das reformas políticas para a superação de regimes autoritários.
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| Infográfico com resumo do processo de Redemocratização do Brasil |
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RESUMO
A redemocratização do Brasil entre 1974 e 1988
- A transição política ocorreu de forma lenta, controlada pelos militares e articulada com pressões sociais crescentes.
- A sociedade civil reorganizou-se para reivindicar participação política e restaurar garantias democráticas.
Situação política e social durante o processo
- A crise econômica da década de 1970 reduziu a legitimidade do regime.
- Movimentos estudantis, religiosos e intelectuais ampliaram a contestação ao autoritarismo.
A abertura política entre 1974 e 1985
- Geisel iniciou a flexibilização do aparato repressivo e a revisão do AI-5.
- Figueiredo aprofundou a liberalização e autorizou maior atuação partidária e social.
A Lei da Anistia de 1979
- Permitiu o retorno de perseguidos políticos e a libertação de presos.
- Gerou debates posteriores por estender anistia a agentes estatais envolvidos em violações de direitos humanos.
A atuação dos movimentos sociais e das novas organizações da sociedade civil
- Sindicatos renovados, organizações religiosas e entidades profissionais assumiram protagonismo político.
- Associações de moradores, movimentos estudantis e grupos de direitos humanos expandiram a mobilização social.
O movimento Diretas Já entre 1983 e 1984
- Mobilizou milhões de pessoas em comícios por eleições diretas.
- Uniu setores políticos diversos, apesar da rejeição da emenda constitucional.
A eleição indireta de 1985
- Tancredo Neves venceu pelo Colégio Eleitoral, simbolizando o fim da hegemonia militar.
- José Sarney assumiu após a morte de Tancredo, consolidando o retorno ao governo civil.
O governo Sarney e a reorganização institucional
- Enfrentou inflação e fragilidade econômica.
- Iniciou debates estruturais e preparou o ambiente para a Constituinte.
A Constituição de 1988
- Restabeleceu o voto direto e ampliou direitos civis e sociais.
- Fortaleceu mecanismos democráticos e encerrou formalmente a transição.
Impactos de longo prazo
- Recuperou a autonomia dos poderes republicanos e fortaleceu o pluralismo partidário.
- Incentivou a cultura política participativa e sustentou a consolidação do Estado democrático de direito.
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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor graduado em História pela FFLCH-USP)
Publicado em 26/02/2026
Fontes de referência:
GASPARI, Elio. A ditadura derrotada. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
O PENSAMENTO POLÍTICO E A REDEMOCRATIZAÇÃO DO BRASIL - Marilena Chauí e Marco Aurélio Nogueira
