Governo José Sarney (1985-1990): características, política e economia

José Sarney foi o primeiro presidente do Brasil na Nova República. Conheça as principais características políticas e econômicas do seu governo.

José Sarney: presidente do Brasil entre 1985 e 1990.
José Sarney: presidente do Brasil entre 1985 e 1990.


Introdução


O governo de José Sarney (1985-1990) marcou a primeira fase do período pós-ditadura militar no Brasil, sendo um momento de transição entre o regime autoritário e a redemocratização do país. Embora Sarney não tenha sido eleito diretamente pelo povo, sua ascensão à presidência representou o fim de um ciclo de mais de duas décadas de governos militares. Seu mandato enfrentou desafios políticos e econômicos profundos, sendo lembrado principalmente pela hiperinflação, pela instabilidade econômica e pela promulgação da nova Constituição em 1988.



Contexto histórico nacional

A chegada de José Sarney à Presidência da República está inserida em um processo mais amplo de redemocratização, iniciado ainda durante o regime militar, com a lenta abertura política promovida pelos próprios militares. O governo de João Figueiredo, último presidente militar, abriu espaço para a organização de partidos políticos, a anistia aos exilados políticos e o fortalecimento da sociedade civil. Em 1985, foi realizada a eleição indireta para presidente, vencida por Tancredo Neves, com Sarney como vice.

Entretanto, Tancredo adoeceu gravemente antes da posse e faleceu em abril de 1985, o que levou Sarney, até então presidente do PDS (partido ligado ao regime militar, mas que rompeu com ele ao apoiar Tancredo), a assumir o cargo interinamente e, posteriormente, de forma definitiva. Assim, o Brasil iniciava uma nova etapa de sua história política sob a liderança de um presidente civil, ainda que não eleito pelo voto direto, o que expressava as contradições e tensões do processo de transição democrática.



Características políticas do governo José Sarney:


- Reabertura política e liberdade de imprensa: o governo Sarney deu continuidade à política de abertura iniciada anteriormente, promovendo a liberdade de expressão, o fim da censura e o fortalecimento dos partidos políticos.


- Convivência com o Congresso Nacional: Sarney governou com forte apoio do Congresso, mas teve de lidar com a fragmentação partidária e o fortalecimento de diferentes forças políticas emergentes, inclusive de oposição.


- Atuação do PMDB: o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), legenda à qual Sarney se filiou após romper com o PDS, assumiu protagonismo na política nacional, controlando o Executivo e grande parte do Legislativo durante esse período.


- Constituição de 1988: um dos marcos fundamentais do governo Sarney foi a promulgação da nova Constituição, em 5 de outubro de 1988. A Carta Magna estabeleceu os pilares da democracia brasileira, com ampliação dos direitos civis, políticos e sociais, criação de instrumentos de participação popular (como o referendo e a iniciativa popular), reconhecimento de direitos trabalhistas, direito à saúde e à educação, entre outros avanços institucionais.


- Criação do Ministério da Cultura: em 1985, Sarney instituiu oficialmente o Ministério da Cultura, buscando valorizar a produção artística nacional e preservar o patrimônio histórico brasileiro.



Economia brasileira no Governo Sarney


Durante o governo José Sarney, a economia brasileira enfrentou uma das mais graves crises de sua história. O país vivia uma conjuntura de hiperinflação, com índices que ultrapassaram 1.000% ao ano em determinados momentos. Essa situação impactava diretamente o cotidiano da população, corroendo salários e provocando instabilidade social.

Para tentar conter esse cenário, o governo lançou diversos planos econômicos:


- Plano Cruzado (1986): implantado pelo então ministro da Fazenda, Dilson Funaro, substituiu o cruzeiro pelo cruzado, congelou preços e salários e criou o gatilho salarial (reajuste automático sempre que a inflação atingisse 20%). Inicialmente, obteve grande apoio popular e resultados positivos, mas perdeu eficácia devido ao descontrole fiscal e ao congelamento artificial dos preços, o que gerou desabastecimento e mercado paralelo.


- Plano Cruzado II (1986): foi uma tentativa de corrigir as falhas do primeiro plano. Descongelou preços, aumentou impostos e teve impacto negativo na popularidade do governo, sem conseguir controlar a inflação de forma consistente.


- Plano Bresser (1987): liderado pelo novo ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, o plano buscava reduzir o déficit público com congelamento de preços seletivo e cortes nos gastos públicos, mas também não obteve êxito completo.


- Plano Verão (1989): já ao final do mandato, o governo lançou esse plano com a adoção de uma nova moeda, o cruzado novo. Novamente, buscava conter a inflação com congelamento de preços e nova âncora cambial, sem sucesso duradouro.


Além da inflação, o governo Sarney teve de lidar com a estagnação econômica, queda no poder aquisitivo da população, aumento da dívida externa e dificuldades nas negociações com organismos internacionais, como o FMI.

 

Política externa

A política externa do governo José Sarney foi marcada pela retomada do protagonismo diplomático brasileiro em um cenário internacional ainda dividido pela Guerra Fria. Buscando reafirmar a soberania nacional e diversificar parcerias, o Brasil adotou uma postura de autonomia em relação aos blocos hegemônicos, aproximando-se de países da América Latina, África e Ásia. Sarney apoiou a consolidação do processo de integração regional, participando ativamente da criação do Mercosul, que seria formalizado posteriormente, e firmando acordos bilaterais com países vizinhos, como a Argentina, com quem superou antigas rivalidades diplomáticas. 

Outro destaque foi o posicionamento firme contra o apartheid na África do Sul e o reforço do discurso em favor da autodeterminação dos povos. A diplomacia brasileira, nesse período, buscou alinhar-se aos princípios democráticos que estavam sendo internalizados no país, defendendo o multilateralismo e os direitos humanos como elementos centrais da atuação internacional do Brasil.

 

Foto da posse de José Sarney como presidente do Brasil em 1985

Foto da posse de José Sarney como presidente do Brasil em 1985.

 



Principais realizações do governo Sarney:


Apesar das dificuldades enfrentadas, o governo Sarney teve realizações significativas que marcaram o processo de redemocratização e modernização institucional do Brasil:



- Restabelecimento das eleições diretas para presidente: ainda que Sarney não tenha sido eleito diretamente, seu governo viabilizou a aprovação de leis que permitiriam o retorno das eleições diretas em 1989.


- Criação de novos direitos sociais: o governo incentivou a ampliação de programas sociais e apoiou a inclusão de direitos à educação, saúde, previdência social, moradia e assistência ao trabalhador na Constituição.


- Valorização da cultura: com a criação do Ministério da Cultura e o apoio a políticas de incentivo à produção artística e preservação da memória nacional.


- Estímulo à descentralização administrativa: com a nova Constituição, estados e municípios passaram a ter maior autonomia política e orçamentária, favorecendo a democratização das decisões públicas.


- Criação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA): fundado em 1989, o IBAMA foi criado com a finalidade de consolidar e coordenar ações de fiscalização, preservação e recuperação ambiental em nível nacional, sendo um marco na política ambiental brasileira.


- Implementação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool): embora criado durante o regime militar, o governo Sarney deu continuidade e novo impulso ao programa, buscando reduzir a dependência do petróleo por meio do estímulo à produção e consumo do etanol, especialmente em um contexto de crise energética global.


- Avanços nas telecomunicações: durante seu mandato, foi expandida a infraestrutura de telecomunicações no país, com aumento na instalação de linhas telefônicas, especialmente em áreas urbanas periféricas e cidades do interior, como parte do esforço de modernização da infraestrutura nacional.


- Políticas habitacionais por meio do BNH: o governo Sarney ampliou os investimentos em moradias populares por meio do Banco Nacional da Habitação, promovendo programas voltados à construção de conjuntos habitacionais destinados à população de baixa renda, ainda que com limitações estruturais.


- Valorização das universidades públicas: mesmo em meio a dificuldades fiscais, houve esforços de ampliação de vagas e abertura de novos cursos em universidades federais, com o objetivo de democratizar o acesso ao ensino superior em diversas regiões do país.


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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 25/08/2025



Fonte de referência:

ARRUDA, José Jobson de A.; PILETTI, Nelson. Toda a história. História geral e do Brasil. São Paulo: Ática, 1999.


https://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/1787/texto157.pdf

 

https://www.ie.ufrj.br/images/IE/TDS/2019/TD_IE_007_2019_PINTO.pdf

 

 



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