Levante Integralista de 1938: o que foi, objetivos e consequências

O Levante Integralista de 1938 foi uma tentativa fracassada de golpe de Estado promovida pela Ação Integralista Brasileira contra o governo de Getúlio Vargas, após a extinção dos partidos políticos no Estado Novo.

Saudação Integralista
Saudação Integralista


O que foi

O Levante Integralista, também conhecido como Intentona Integralista, foi uma tentativa de levante armado realizada em 10 e 11 de maio de 1938 por membros da Ação Integralista Brasileira (AIB) contra o governo de Getúlio Vargas. O movimento ocorreu poucos meses após a instauração do Estado Novo, proclamado em 10 de novembro de 1937, e teve como alvo principal o Palácio Guanabara, residência oficial do presidente da República no então Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro.

A denominação “intentona” foi amplamente utilizada pela imprensa e pelo próprio governo, seguindo a mesma lógica adotada para caracterizar a Intentona Comunista de 1935, com o intuito de deslegitimar a ação e qualificá-la como uma aventura golpista desordenada. No caso integralista, tratava-se de um movimento articulado por setores que, até poucos meses antes, haviam apoiado a consolidação de um regime autoritário no Brasil, mas que foram posteriormente marginalizados pelo novo governo.


Contexto histórico


Para compreender o Levante Integralista, é necessário situá-la no contexto político do Brasil na década de 1930. A Revolução de 1930 encerrou a Primeira República (1889–1930) e levou Getúlio Vargas ao poder. O período subsequente foi marcado por instabilidade política, disputas regionais e crescente polarização ideológica.

A década de 1930 foi também marcada pela ascensão de regimes autoritários na Europa, como o fascismo italiano de Benito Mussolini e o nazismo alemão de Adolf Hitler. Essas experiências exerceram forte influência sobre movimentos políticos no Brasil, inclusive sobre a Ação Integralista Brasileira, fundada em 1932 por Plínio Salgado. O integralismo defendia um Estado forte, centralizado, corporativista, nacionalista e anticomunista. Seus militantes utilizavam uniformes verdes, realizavam desfiles e adotavam o sigma como símbolo do movimento.

O Brasil vivia, nesse período, um ambiente de radicalização ideológica. À esquerda, destacava-se a Aliança Nacional Libertadora (ANL), que protagonizou a Intentona Comunista de 1935. À direita, a AIB expandia-se rapidamente, tornando-se uma das maiores organizações políticas de massa do país na época.

Em 1937, sob o pretexto da ameaça comunista e com base no chamado Plano Cohen, Vargas instaurou o Estado Novo, fechou o Congresso Nacional, suspendeu as eleições previstas para 1938 e outorgou uma nova Constituição autoritária. Inicialmente, muitos integralistas apoiaram o golpe de 1937, acreditando que participariam do novo arranjo político. Contudo, o regime logo decretou a extinção de todos os partidos políticos, inclusive a própria AIB.


Causa principal

A causa principal da Intentona Integralista foi a frustração política da liderança e dos militantes integralistas diante da dissolução da Ação Integralista Brasileira pelo Estado Novo.

Os integralistas haviam colaborado, direta ou indiretamente, para o fortalecimento de um ambiente favorável ao autoritarismo. Compartilhavam com Vargas o anticomunismo e a defesa de um Estado centralizado. Entretanto, ao consolidar o poder pessoal, Vargas optou por eliminar qualquer organização autônoma que pudesse disputar influência política, inclusive aquelas ideologicamente próximas.

A dissolução da AIB, acompanhada da proibição de manifestações políticas e da vigilância sobre seus membros, representou uma ruptura profunda entre o governo e o movimento integralista. Parte da liderança passou a considerar que Vargas havia traído o integralismo e usurpado o projeto autoritário que, em sua visão, deveria ser conduzido sob liderança integralista ou ao menos com sua participação decisiva.

Essa sensação de exclusão e traição alimentou a conspiração que culminaria na tentativa de golpe em maio de 1938.



Objetivo

O objetivo central da Intentona Integralista era depor Getúlio Vargas e reorganizar o poder político no Brasil, restituindo espaço para o integralismo ou instaurando um governo alinhado aos seus princípios.

Não se tratava apenas de uma reação emocional à perda de espaço político, mas de uma tentativa concreta de alterar a estrutura de poder do Estado Novo. Os conspiradores buscavam capturar ou eliminar o presidente, desarticular a cúpula do governo e, a partir daí, desencadear uma mobilização mais ampla que pudesse levar à tomada do poder.

Havia a expectativa de que setores militares simpáticos ao integralismo pudessem aderir ao movimento ou, ao menos, não reagir com vigor. Esse cálculo, no entanto, revelou-se equivocado.



Como ocorreu

A tentativa de levante foi organizada por um grupo de integralistas que incluía oficiais das Forças Armadas e civis ligados à antiga AIB. A ação principal ocorreu na madrugada de 10 para 11 de maio de 1938.

O plano previa o ataque ao Palácio Guanabara, residência oficial de Vargas, onde o presidente se encontrava com sua família. O grupo invasor conseguiu penetrar parcialmente nas dependências do palácio, gerando intensa troca de tiros com a guarda presidencial. Getúlio Vargas teria se abrigado em um dos aposentos internos enquanto a defesa reagia ao ataque.

Simultaneamente, estavam previstas outras ações, como a ocupação de pontos estratégicos na cidade do Rio de Janeiro. Contudo, a coordenação foi falha, e muitas das iniciativas planejadas não se concretizaram ou foram rapidamente neutralizadas.

A resistência encontrada no Palácio Guanabara foi decisiva. A guarda presidencial e forças leais ao governo conseguiram conter os invasores até a chegada de reforços. O elemento surpresa, essencial para o sucesso de uma ação dessa natureza, perdeu-se rapidamente diante da resposta organizada das forças governamentais.



Como terminou

A Intentona Integralista fracassou em poucas horas. Os envolvidos foram presos ou fugiram. O governo agiu com rapidez para desarticular a conspiração, prendendo lideranças e ampliando a repressão sobre antigos membros da AIB.

Plínio Salgado, líder máximo do integralismo, foi responsabilizado politicamente pelo movimento, ainda que existam debates historiográficos sobre o grau de sua participação direta na organização do levante. Posteriormente, ele foi preso e, em seguida, exilado em Portugal.

O episódio fortaleceu a posição de Vargas, que passou a apresentar-se como alvo de extremismos tanto de esquerda quanto de direita, reforçando o discurso de que o Estado Novo era necessário para garantir a ordem e a estabilidade nacional.



Consequências


As consequências da Intentona Integralista foram significativas no plano político e simbólico.

Em primeiro lugar, o episódio legitimou a intensificação da repressão do Estado Novo. O governo utilizou o atentado como justificativa para ampliar os mecanismos de vigilância, censura e controle político. O aparato policial foi fortalecido, e a narrativa oficial enfatizou a necessidade de combater conspirações que ameaçassem a segurança do Estado.

Em segundo lugar, o movimento integralista sofreu um golpe quase definitivo como força política organizada. A dissolução da AIB, já decretada em 1937, tornou-se irreversível após o fracasso do levante. Muitos militantes foram presos, outros se afastaram da política e alguns buscaram reorganizar-se de maneira discreta ou informal.

Em terceiro lugar, o episódio consolidou o monopólio do poder por parte de Vargas. A eliminação de ameaças vindas tanto da esquerda (após 1935) quanto da direita (após 1938) contribuiu para a consolidação do Estado Novo como um regime autoritário personalista, que se estenderia até 29 de outubro de 1945.

No plano mais amplo da história política brasileira, a Intentona Integralista revelou as tensões internas do campo autoritário e demonstrou que regimes centralizadores tendem a eliminar inclusive aliados potenciais quando estes representam risco à concentração de poder.


Conclusão

A Intentona Integralista de maio de 1938 não pode ser compreendida como um episódio isolado ou meramente episódico da história política brasileira. Ela constitui expressão das disputas ideológicas e dos conflitos de poder que marcaram o Brasil na década de 1930, período caracterizado por intensa polarização e pela busca de soluções autoritárias diante de crises políticas e sociais.

O levante integralista evidencia a complexidade das alianças estabelecidas no processo de construção do Estado Novo. Grupos que inicialmente convergiram em torno do combate ao liberalismo e ao comunismo acabaram se tornando adversários quando o poder foi concentrado em torno da figura de Vargas.

Do ponto de vista historiográfico, a Intentona Integralista revela como projetos autoritários podem colidir entre si quando disputam a direção do Estado. O episódio demonstra que o autoritarismo não constitui um bloco homogêneo, mas um campo de forças marcado por divergências estratégicas e ambições concorrentes.

Assim, a Intentona Integralista deve ser analisada como parte integrante do processo de consolidação do Estado Novo (1937–1945), ilustrando a dinâmica pela qual o regime varguista eliminou sucessivamente seus opositores e consolidou um poder centralizado, sustentado por repressão política, controle institucional e forte aparato simbólico de legitimação.

 

 

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Atualizado em 27/02/2026

Por Jefferson Evandro Machado Ramos
Graduado em História pela Universidade de São Paulo - USP (1994).



Fontes de pesquisa utilizadas na elaboração do artigo:

 

ARRUDA, José Jobson de A.; PILETTI, Nelson. Toda História – História Geral e História do Brasil. São Paulo: Ática, 2001.

CARONE, Edgard. A Terceira República (1937-1945). São Paulo: Ática, 1989.

 

Bibliografia Indicada sobre o tema:

 

CAVALARI, Rosa Maria F. Integralismo - ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauro: Edusc, 2000.



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