Reformas urbanas no Rio de Janeiro no início do século XX

As Reformas Urbanas do início do século XX transformaram o Rio de Janeiro em uma cidade moderna e higienizada, mas aprofundaram a exclusão social e marcaram o início das desigualdades urbanas que persistem até hoje.

Bota Abaixo: demolição de casas populares durante as Reformas Urbanas no Rio de Janeiro
Bota Abaixo: demolição de casas populares durante as Reformas Urbanas no Rio de Janeiro



Introdução: a capital em crise e a necessidade de mudança


No final do século XIX, o Rio de Janeiro apresentava-se como uma metrópole congestionada, insalubre e desigual. A antiga “Cidade Velha”, que concentrava boa parte da população e das atividades econômicas, enfrentava sérios problemas de saneamento e de moradia. Os cortiços, símbolo da pobreza urbana, proliferavam em áreas centrais, tornando-se foco de epidemias de febre-amarela, varíola e peste bubônica.


A imagem da cidade dos cortiços tornava-se incompatível com o ideal de capital moderna e civilizada que as elites brasileiras desejavam projetar ao mundo. Inspiradas em modelos europeus, especialmente Paris, as autoridades republicanas buscaram transformar o Rio de Janeiro em um espaço de progresso e ordem. Nesse contexto, surge a figura do engenheiro e prefeito Pereira Passos (1902-1906), responsável por conduzir o mais ambicioso programa de reformas urbanas da história da cidade até então.



O Projeto de “Bota Abaixo”: saneamento e reordenamento


O conjunto de intervenções urbanas promovido por Pereira Passos tinha como principais objetivos a modernização da infraestrutura, o combate às epidemias e o embelezamento arquitetônico da capital. A cidade deveria refletir a imagem de uma nação civilizada e pronta para o século XX. As reformas englobaram obras de saneamento básico, pavimentação, iluminação pública, ampliação de redes de esgoto e a criação de novas vias para facilitar a circulação e o transporte.


Entre as intervenções mais emblemáticas destacou-se a abertura da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), que se tornaria o eixo simbólico do novo Rio de Janeiro. Inspirada nos boulevards parisienses, a avenida representava a transição entre o passado colonial e a modernidade urbana.


O alargamento de ruas e a construção de praças e avenidas deram origem a um novo padrão arquitetônico, marcado pelo ecletismo e pela influência francesa.


Contudo, o processo de demolições em massa, conhecido popularmente como “Bota Abaixo”, resultou na destruição de centenas de moradias populares e cortiços, desalojando milhares de pessoas.


Paralelamente às reformas urbanas, o médico Oswaldo Cruz liderou uma intensa campanha sanitária, marcada pela vacinação obrigatória e pelo combate aos mosquitos transmissores de doenças, consolidando a face científica e higienista da modernização carioca.



Consequências sociais e a revolta popular


As transformações urbanas trouxeram profundas consequências sociais. A política de demolição dos cortiços provocou o deslocamento forçado de camadas populares para as áreas periféricas, impulsionando o surgimento das primeiras favelas e o crescimento dos subúrbios. O aumento do custo dos aluguéis e a especulação imobiliária agravaram ainda mais a crise habitacional. Esse processo de exclusão urbana foi acompanhado por forte repressão policial e pela imposição de medidas autoritárias sob o pretexto de garantir a saúde pública e a ordem social.


Em 1904, a insatisfação popular explodiu na Revolta da Vacina. A obrigatoriedade da imunização contra a varíola, imposta pela Brigada Sanitária, gerou grande resistência entre a população pobre, que via na política de saúde um instrumento de coerção e humilhação. O movimento, marcado pela participação de trabalhadores, estudantes e militares, revelou o descontentamento generalizado com as reformas e foi violentamente reprimido pelas forças governamentais.


Portanto, as reformas de Pereira Passos, embora modernizadoras, acentuaram as tensões sociais e expuseram a distância entre o projeto de cidade idealizado pelas elites e a realidade vivida pelos seus habitantes.



O legado e a nova imagem da cidade


O Rio de Janeiro saiu das reformas de Pereira Passos com uma nova aparência: ruas amplas, prédios elegantes e um traçado urbano inspirado nas capitais europeias. A cidade passou a ser vista como o cartão-postal da República, símbolo de um Brasil que aspirava à modernidade. As melhorias na infraestrutura e as campanhas sanitárias reduziram as epidemias e criaram condições mais adequadas à vida urbana. Entretanto, o processo de modernização revelou-se seletivo e excludente.


Historicamente, os historiadores apontam que o “Rio Moderno” foi construído às custas da expulsão dos mais pobres, transformando o espaço urbano em uma vitrine de civilização voltada às classes abastadas e estrangeiros. A higienização das áreas centrais, sob o discurso de saúde e ordem, representou na prática uma limpeza social. Assim, a urbanização carioca no início do século XX não apenas reconfigurou o espaço físico, mas também redefiniu o mapa social da cidade, inaugurando um padrão de desigualdade que perdura até os dias atuais.



Conclusão


As reformas urbanas do início do século XX foram um marco no processo de modernização do Rio de Janeiro, transformando profundamente sua paisagem e sua estrutura social. A cidade, que antes simbolizava o atraso e a insalubridade, passou a representar o progresso e a modernidade. No entanto, o preço dessa transformação foi alto para as classes populares, que perderam seus lares e viram-se empurradas para as margens da urbe.


O projeto de modernização concebido por Pereira Passos e sustentado pelas elites republicanas consolidou o contraste entre o luxo do centro e a precariedade das periferias.


As reformas do período revelam um traço estrutural da urbanização brasileira: o desenvolvimento urbano marcado pela exclusão e pela desigualdade, heranças ainda visíveis na configuração social e espacial do Rio de Janeiro contemporâneo.

 

 

Avenida Central no Rio de Janeiro após as reformas urbanas

Avenida Central no Rio de Janeiro após as reformas urbanas (1909)

 

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 11/11/2025


 

Fontes de referência:

 

AS REFORMAS URBANAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO NO INÍCIO DO SÉCULO XX E XXI: O PORTO EM QUESTÃO - Ingrid Gomes Ferreira - Universidade Federal Fluminense (UFF)

 

BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussmann tropical: a renovação urbana da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, 1990.



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