Brasil República; texto com temas, fases, governos, resumo e infográfico

O Brasil República, iniciado em 1889, caracteriza-se pela alternância entre regimes oligárquicos, autoritários e democráticos, marcados por transformações políticas, econômicas e sociais que moldaram a formação do Estado brasileiro.

Proclamação da República em 15 de novembro de 1889: o marco inicial do período republicano.
Proclamação da República em 15 de novembro de 1889: o marco inicial do período republicano.

 

1. Introdução: a Transição do Império para a República



A Crise da Monarquia: As Questões Religiosa, Militar e Abolicionista

A crise do regime monárquico brasileiro intensificou-se nas décadas finais do século XIX, especialmente entre 1870 e 1889. A chamada Questão Religiosa (1872–1875) colocou em confronto o Estado imperial e a Igreja Católica, quando bispos que aplicaram sanções a membros da maçonaria foram punidos pelo governo, evidenciando o controle estatal sobre assuntos eclesiásticos desde o regime do Padroado.

A Questão Militar, por sua vez, revelou o crescente descontentamento de oficiais do Exército após a Guerra do Paraguai (1864–1870). Os militares reivindicavam maior prestígio institucional e criticavam a interferência do poder civil em assuntos internos da corporação. Já a Questão Abolicionista, culminando na Lei Áurea de 13 de maio de 1888, aprofundou o isolamento político da monarquia ao romper com a elite agrária escravocrata, que não recebeu indenizações pela libertação dos escravizados.



O Golpe de 15 de Novembro: O papel do Exército e da elite cafeeira

Em 15 de novembro de 1889, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, setores do Exército proclamaram a República no Rio de Janeiro, então capital do país. O movimento contou com o apoio de segmentos da elite cafeeira paulista, interessados em maior autonomia federativa e em um modelo político mais descentralizado.

A mudança de regime ocorreu sem ampla mobilização popular, configurando-se como um golpe de natureza militar e elitista. A família imperial foi exilada, encerrando o período do Império (1822–1889) e inaugurando uma nova fase institucional.



Simbologia Republicana: a construção de novos heróis (Tiradentes) e a nova bandeira

A República buscou consolidar sua legitimidade por meio da construção de símbolos nacionais. A figura de Tiradentes foi ressignificada como mártir republicano, associada a ideais de liberdade e ruptura com o despotismo.

A nova bandeira, adotada em 19 de novembro de 1889, manteve as cores verde e amarela, mas substituiu o brasão imperial pelo lema positivista “Ordem e Progresso”, inspirado nas ideias de Auguste Comte, refletindo a influência do positivismo entre militares e intelectuais.



2. República Velha ou Primeira República (1889–1930)



República da Espada (1889–1894): Os governos militares de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto; a Constituição de 1891

O período inicial da República foi marcado por governos militares. Deodoro da Fonseca governou entre 1889 e 1891, enfrentando crises políticas que culminaram em sua renúncia. Seu sucessor, Floriano Peixoto, consolidou o regime ao reprimir revoltas, como a Revolta da Armada.

A Constituição de 24 de fevereiro de 1891 instituiu o presidencialismo, o federalismo e o voto aberto masculino para maiores de 21 anos, excluindo analfabetos, mulheres e praças militares. O Estado brasileiro passou a ser oficialmente laico.



República Oligárquica (1894–1930)

Com a eleição de Prudente de Morais em 1894, iniciou-se a fase dominada pelas oligarquias agrárias, especialmente de São Paulo e Minas Gerais.

Mecanismos de Poder: Política dos Governadores, Coronelismo e o "Voto de Cabresto"

A Política dos Governadores articulava o apoio entre o presidente e as elites estaduais. O coronelismo consistia no poder local exercido por grandes proprietários rurais, que controlavam o eleitorado por meio do voto de cabresto, prática facilitada pelo voto aberto.

Esse sistema garantia a alternância entre paulistas e mineiros na chamada política do café com leite, consolidando um pacto oligárquico.



Economia: o Convênio de Taubaté e a valorização do café

O Convênio de Taubaté, firmado em 1906, foi um acordo entre os estados produtores de café para sustentar preços no mercado internacional, mediante a compra e estocagem de excedentes. Essa política reforçou a dependência do Brasil à exportação cafeeira e ampliou a vulnerabilidade diante da crise de 1929.



Conflitos Sociais: Canudos, Contestado, Revolta da Vacina e Revolta da Chibata

A Primeira República foi marcada por intensos conflitos sociais. A Guerra de Canudos (1896–1897), na Bahia, liderada por Antônio Conselheiro, foi reprimida pelo Exército. A Guerra do Contestado (1912–1916), no Sul, envolveu disputas territoriais e questões sociais.

A Revolta da Vacina (1904), no Rio de Janeiro, expressou a insatisfação popular com medidas sanitárias autoritárias. A Revolta da Chibata (1910), liderada por João Cândido, denunciou os castigos físicos na Marinha.



Crise da Oligarquia: o Tenentismo, a Semana de Arte Moderna (1922) e a fundação do PCB

O Tenentismo, movimento de jovens oficiais nas décadas de 1920, criticava a corrupção eleitoral e defendia reformas políticas. Em 1922, a Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, simbolizou uma ruptura cultural com padrões tradicionais.

No mesmo ano foi fundado o Partido Comunista Brasileiro, refletindo a influência da Revolução Russa de 1917 no cenário político nacional.



3. A Era Vargas (1930–1945)



A Revolução de 1930: O fim da hegemonia cafeeira e a ascensão de Getúlio Vargas

A crise de 1929 abalou o modelo agroexportador. A vitória eleitoral de Júlio Prestes foi contestada pela Aliança Liberal, liderada por Getúlio Vargas. Em outubro de 1930, um movimento armado depôs o presidente Washington Luís e impediu a posse de Prestes.



Governo Provisório e a Revolução Constitucionalista de 1932

Entre 1930 e 1934, Vargas governou provisoriamente, centralizando poderes e nomeando interventores nos estados. A Revolução Constitucionalista de 1932, liderada por São Paulo, exigiu uma nova Constituição.



Governo Constitucional (1934–1937): A polarização entre AIB (Integralismo) e ANL (Aliancismo)

A Constituição de 1934 introduziu avanços trabalhistas e o voto feminino. O cenário político polarizou-se entre a Ação Integralista Brasileira, de inspiração fascista, e a Aliança Nacional Libertadora, de orientação socialista.



Estado Novo (1937–1945): A ditadura varguista e o uso do DIP

Em 10 de novembro de 1937, Vargas instaurou o Estado Novo, regime autoritário sustentado por censura e propaganda, por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda.



Trabalhismo: A criação da CLT e o populismo


Em 1943 foi promulgada a Consolidação das Leis do Trabalho, institucionalizando direitos trabalhistas e fortalecendo o vínculo entre o Estado e os trabalhadores urbanos.



Desenvolvimentismo: A criação da CSN e Vale do Rio Doce

A industrialização ganhou impulso com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (1941) e da Companhia Vale do Rio Doce (1942), ampliando a infraestrutura produtiva.



O Brasil na II Guerra Mundial

Em 1942, o Brasil declarou guerra ao Eixo e enviou a Força Expedicionária Brasileira à Itália, consolidando sua inserção internacional.




4. Período Democrático ou República Populista (1945–1964)



Governo Dutra (1946–1951): Alinhamento com os EUA e o Plano SALTE

O governo de Eurico Gaspar Dutra adotou alinhamento com os Estados Unidos no contexto da Guerra Fria e implementou o Plano SALTE.



O Retorno de Vargas (1951–1954): o nacionalismo econômico ("O Petróleo é Nosso") e o suicídio de Getúlio

Vargas retornou pelo voto em 1951, defendendo o nacionalismo econômico e criando a Petrobras em 1953. Pressionado por crises políticas, suicidou-se em 24 de agosto de 1954.



Juscelino Kubitschek (1956–1961): O Plano de Metas, a construção de Brasília e a entrada das multinacionais


Juscelino Kubitschek implementou o Plano de Metas, sintetizado no lema “50 anos em 5”. Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960, simbolizando modernização e integração territorial.



Jânio Quadros e João Goulart (1961–1964): a renúncia de Jânio e a crise do parlamentarismo. As Reformas de Base e a radicalização política.

Jânio Quadros renunciou em agosto de 1961. A posse de João Goulart ocorreu sob regime parlamentarista temporário. As Reformas de Base ampliaram a polarização política.



5. Ditadura Civil-Militar (1964–1985)



O Golpe de 1964: Justificativas e o apoio civil

Em 31 de março de 1964, militares depuseram João Goulart sob o argumento de conter o comunismo. O regime contou com apoio de setores empresariais, da imprensa e de parte da classe média.



O Aparato de Repressão: Os Atos Institucionais (especialmente o AI-5)

O Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, ampliou a repressão, suspendendo garantias constitucionais e institucionalizando a censura.



O Milagre Econômico (1968–1973): crescimento do PIB, obras faraônicas e o aumento da desigualdade social

Durante os governos militares, o país registrou crescimento acelerado, mas com concentração de renda e endividamento externo.



Resistência: a luta armada, a guerrilha do Araguaia e a resistência cultural

Grupos de oposição organizaram ações armadas, como a Guerrilha do Araguaia (1972–1974). Paralelamente, artistas e intelectuais desenvolveram formas de resistência cultural.



Abertura Política: A Lei de Anistia, o surgimento do "Novo Sindicalismo" e o movimento Diretas Já

A Lei de Anistia (1979) marcou o início da transição. O movimento Diretas Já (1984) mobilizou milhões em defesa do voto direto.




6. A Nova República (1985–Presente)



A Redemocratização: O governo Sarney e o combate à hiperinflação (Plano Cruzado)

José Sarney assumiu em 1985 após a morte de Tancredo Neves. O Plano Cruzado (1986) tentou conter a hiperinflação.



A Constituição de 1988: a "Constituição Cidadã" e a garantia de direitos sociais

Promulgada em 5 de outubro de 1988, ampliou direitos civis, políticos e sociais, consolidando o Estado democrático de direito.



A Era Neoliberal

O governo de Fernando Collor promoveu abertura econômica e sofreu impeachment em 1992. Itamar Franco implementou o Plano Real (1994).

Fernando Henrique Cardoso conduziu estabilização monetária e privatizações.



Os Governos do PT (Lula e Dilma): programas sociais, crescimento econômico e a crise política (Operação Lava-Jato e Impeachment de 2016)

Luiz Inácio Lula da Silva ampliou políticas sociais como o Bolsa Família. Dilma Rousseff enfrentou crise política e sofreu impeachment em 2016.



Brasil Contemporâneo (2018–2024): o governo Bolsonaro: pautas conservadoras e a gestão da Pandemia.

Jair Bolsonaro governou entre 2019 e 2022, período marcado por pautas conservadoras e pela gestão da pandemia de Covid-19.

Em 8 de janeiro de 2023, poucos dias após a posse presidencial, manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, contestando o resultado das eleições de 2022 e gerando ampla crise institucional.

 

O retorno de Lula (Lula III): desafios ambientais, reconstrução institucional e polarização política.


Lula retornou à presidência em 2023, enfrentando desafios relacionados à reconstrução institucional, política ambiental e intensa polarização política.

 

 

Infográfico com resumo das fases históricas do Brasil República

Infográfico com resumo das fases históricas do Brasil República

 

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RESUMO

 

1. Transição do império para a república (1889)

   1.1 Crise da monarquia (década de 1870–1889)

   - Questão religiosa (1872–1875): conflito entre igreja e estado.
   - Questão militar (pós-guerra do paraguai, 1864–1870): fortalecimento e insatisfação do exército.
   - Questão abolicionista (lei áurea, 13 de maio de 1888): ruptura com a elite escravocrata.

   1.2 Proclamação da república (15 de novembro de 1889)

   - Golpe liderado pelo exército com apoio da elite cafeeira.
   - Deposição de dom pedro ii e instauração do regime republicano.

   1.3 Construção simbólica do novo regime

   - Valorização de tiradentes como mártir republicano.
   - Nova bandeira com o lema ordem e progresso.



2. República velha ou primeira república (1889–1930)

   2.1 República da espada (1889–1894)

   - Governos militares de deodoro da fonseca e floriano peixoto.
   - Constituição de 1891: federalismo, presidencialismo e voto aberto.

   2.2 República oligárquica (1894–1930)

   - Predomínio das oligarquias de são paulo e minas gerais.
   - Política do café com leite.

   2.3 Mecanismos de poder

   - Política dos governadores e fortalecimento dos estados.
   - Coronelismo e voto de cabresto como instrumentos de controle eleitoral.

   2.4 Economia cafeeira

   - Convênio de taubaté (1906): valorização artificial do café.
   - Dependência do modelo agroexportador.

   2.5 Conflitos sociais

   - Guerra de canudos (1896–1897).
   - Guerra do contestado (1912–1916).
   - Revolta da vacina (1904).
   - Revolta da chibata (1910).

   2.6 Crise do regime

   - Tenentismo (década de 1920).
   - Semana de arte moderna (1922).
   - Fundação do pcb (1922).



3. Era vargas (1930–1945)

   3.1 Revolução de 1930

   - Fim da hegemonia cafeeira e ascensão de getúlio vargas.

   3.2 Governo provisório (1930–1934)

   - Centralização do poder.
   - Revolução constitucionalista de 1932.

   3.3 Governo constitucional (1934–1937)

   - Constituição de 1934 e voto feminino.
   - Polarização entre integralistas e aliancistas.

   3.4 Estado novo (1937–1945)

   - Ditadura e censura por meio do dip.
   - Propaganda política e repressão.

   3.5 Política trabalhista e industrial

   - Consolidação das leis do trabalho (1943).
   - Criação da csn (1941) e vale do rio doce (1942).

   3.6 Segunda guerra mundial (1939–1945)

   - Participação brasileira ao lado dos aliados (1942).



4. Período democrático ou república populista (1945–1964)

   4.1 Governo dutra (1946–1951)

   - Constituição de 1946.
   - Alinhamento aos eua e plano salte.

   4.2 Segundo governo vargas (1951–1954)

   - Nacionalismo econômico e criação da petrobras (1953).
   - Suicídio em 24 de agosto de 1954.

   4.3 Governo juscelino kubitschek (1956–1961)

   - Plano de metas e industrialização.
   - Construção de brasília (1960).

   4.4 Jânio quadros e joão goulart (1961–1964)

   - Renúncia de jânio (1961).
   - Reformas de base e intensificação da polarização política.



5. Ditadura civil-militar (1964–1985)

   5.1 Golpe de 1964

   - Deposição de joão goulart sob justificativa anticomunista.

   5.2 Repressão institucional

   - Atos institucionais e ai-5 (1968).
   - Censura e perseguição política.

   5.3 Milagre econômico (1968–1973)

   - Crescimento do pib e grandes obras.
   - Aumento da desigualdade e endividamento externo.

   5.4 Resistência

   - Luta armada e guerrilha do araguaia (1972–1974).
   - Mobilização cultural e sindical.

   5.5 Abertura política

   - Lei de anistia (1979).
   - Movimento diretas já (1984).



6. Nova república (1985–presente)

   6.1 Redemocratização

   - Governo sarney (1985–1990) e plano cruzado (1986).
   - Constituição de 1988 e ampliação de direitos sociais.

   6.2 Reformas econômicas dos anos 1990

   - Governo collor e impeachment (1992).
   - Plano real (1994) no governo itamar franco.
   - Governo fhc (1995–2002): estabilização e privatizações.

   6.3 Governos do pt (2003–2016)

   - Programas sociais e crescimento econômico.
   - Crise política, operação lava-jato e impeachment de 2016.

   6.4 Brasil contemporâneo (2018–2024)

   - Governo bolsonaro (2019–2022): pautas conservadoras e pandemia.
   - Retorno de lula (desde 2023): desafios institucionais, ambientais e polarização política.

 

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 15/02/2026


 

Fonte de pesquisa:

 

CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

 

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.



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