Governo Dutra: eleição, características, liberalismo e política externa

Eurico Gaspar Dutra foi presidente do Brasil entre 1946 e 1951. Conheça as principais características econômicas e políticas de seu governo.

Dutra: presidente do Brasil entre 1946 e 1951
Dutra: presidente do Brasil entre 1946 e 1951

 

O contexto da eleição de Eurico Gaspar Dutra


O governo de Eurico Gaspar Dutra, que se estendeu de 1946 a 1951, marcou o início da chamada Quarta República no Brasil, sucedendo a ditadura do Estado Novo (1937-1945) implantada por Getúlio Vargas. Dutra foi eleito presidente em um contexto de redemocratização, promovido após a deposição de Vargas, ocorrida em outubro de 1945. O próprio Vargas havia permitido a reabertura dos partidos políticos e anunciado eleições diretas. No entanto, a crescente pressão dos setores militares e civis resultou em sua saída do poder antes da realização das eleições.

Dutra era general do Exército e havia sido Ministro da Guerra de Vargas, contando com prestígio entre os militares e também com o apoio dos setores conservadores. Candidatou-se à presidência pelo recém-criado Partido Social Democrático (PSD), com o apoio do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e da União Democrática Nacional (UDN), derrotando o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN) e o jornalista Iedo Fiúza (PCB). Sua eleição foi a primeira realizada por voto direto após o fim do Estado Novo.

 

PRINCIPAIS MEDIDAS E CARACTERÍSTICAS:



1. A nova Constituição de 1946


Uma das medidas mais importantes de seu governo foi a promulgação de uma nova Constituição, em 18 de setembro de 1946, substituindo a Carta autoritária de 1937. A nova Constituição reafirmou os princípios do Estado democrático de direito e trouxe avanços no campo das liberdades civis e políticas. Estabeleceu o presidencialismo, o voto direto e secreto (exceto para os analfabetos), os direitos trabalhistas e a liberdade de expressão, de imprensa e de organização partidária.

Apesar de ampliar o espaço democrático, a nova Carta manteve a estrutura federativa centralizadora e não estendeu os direitos políticos aos analfabetos, que continuavam excluídos do processo eleitoral. Vale ressaltar também que, embora o PCB tenha obtido grande votação nas eleições legislativas de 1945, o governo Dutra adotaria posteriormente uma política de repressão ao partido e seus militantes.



2. A política econômica e o liberalismo


No campo econômico, o governo Dutra rompeu com o modelo intervencionista e nacional-desenvolvimentista praticado durante o Estado Novo. Inspirado por ideais liberais, Dutra promoveu a abertura da economia ao capital estrangeiro e reduziu a participação do Estado em setores estratégicos. Houve incentivo à importação de bens de consumo e produtos industrializados, o que, a curto prazo, resultou em escassez de divisas e em uma crise na balança de pagamentos.

A política de liberalização teve consequências negativas para a indústria nacional, que havia crescido nas décadas anteriores, amparada pelo protecionismo e por investimentos estatais. O Plano Salte (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia), lançado em 1947 como tentativa de promover o desenvolvimento em áreas fundamentais, acabou sendo ineficaz, devido à escassez de recursos e à falta de planejamento integrado.



3. A política externa e o alinhamento com os Estados Unidos


Durante seu governo, Dutra adotou uma política externa fortemente alinhada aos interesses dos Estados Unidos, inserindo o Brasil no contexto da Guerra Fria. O país rompeu relações diplomáticas com a União Soviética em 1947 e assumiu uma postura anticomunista tanto no plano interno quanto externo. Esse alinhamento garantiu ao Brasil apoio político e econômico norte-americano, além de consolidar a dependência do país em relação às diretrizes da política internacional dos EUA.

A adesão ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), em 1947, e a aproximação com organismos internacionais liderados pelos Estados Unidos reforçaram essa orientação diplomática. Essa postura, entretanto, também gerou críticas de setores nacionalistas que defendiam uma política externa mais autônoma e equilibrada entre os blocos da Guerra Fria.



4. A repressão ao comunismo e o autoritarismo político


Uma das marcas do governo Dutra foi a repressão ao Partido Comunista Brasileiro e a seus militantes. Em 1947, o PCB teve seu registro cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e seus parlamentares perderam seus mandatos. Essa medida foi acompanhada por um aumento da censura à imprensa de esquerda, vigilância a sindicatos e perseguição a intelectuais, artistas e estudantes associados ao comunismo.

A política de segurança interna foi marcada por um endurecimento do aparato repressivo, sob o argumento de combater a ameaça comunista. Essa atitude representou um retrocesso nas liberdades políticas recém-reconquistadas e evidenciou o caráter conservador e autoritário do governo, mesmo em um contexto democrático.



5. A relação com o movimento sindical


Durante o governo Dutra, os sindicatos passaram por um processo de enquadramento e controle por parte do Estado. Apesar de manter os direitos trabalhistas previstos na legislação varguista, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o governo adotou uma política de repressão ao sindicalismo autônomo, especialmente aquele influenciado por ideias socialistas ou comunistas.


Greves foram reprimidas com o uso das forças de segurança, e diversas lideranças sindicais foram presas ou afastadas de suas funções. O governo buscava controlar os sindicatos por meio do Ministério do Trabalho e da política de sindicalismo oficial, subordinando-os aos interesses do Estado e das empresas.



Legado do governo Dutra


O governo Dutra representou um momento de transição entre o autoritarismo do Estado Novo e a tentativa de consolidação da democracia no Brasil. Sua gestão foi marcada por contradições: embora tenha promulgado uma Constituição democrática e realizado eleições livres, adotou práticas autoritárias no combate à oposição comunista e no controle sindical.

A política econômica liberal e a forte dependência externa deixaram um legado de fragilidade para o setor produtivo nacional, e o Plano Salte mostrou-se limitado em seus resultados. Já no campo político, o governo serviu como base institucional para o retorno de Getúlio Vargas ao poder em 1951, agora eleito pelo voto popular em um cenário de crescente demanda por nacionalismo e justiça social.

Dutra, portanto, ocupou um papel de transição: foi o responsável por restabelecer o funcionamento das instituições democráticas, mas seu governo também revelou os limites e as tensões de um processo democrático ainda frágil, sujeito à influência militar, ao conservadorismo político e ao contexto internacional polarizado da Guerra Fria.

 

Foto da cerimônia de posse de Dutra como presidente do Brasil

Cerimônia de Posse de Eurico Gaspar Dutra como presidente da República (ano de 1946, fonte:  Arquivo Nacional).

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 04/08/2025


 

Fonte de referência do artigo:


ARRUDA, José Jobson de A.; PILETTI, Nelson. Toda a história. História geral e do Brasil. São Paulo: Ática, 1999.



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