Governo Costa e Silva: caracteríticas, acontecimentos, economia, política e resumo

O governo Costa e Silva (1967-1969) marcou a consolidação autoritária da ditadura militar, combinando crescimento econômico inicial, centralização política e forte intensificação da repressão estatal.

Costa e Silva: presidente do Brasil entre 1967 e 1969
Costa e Silva: presidente do Brasil entre 1967 e 1969

 

Introdução: aspectos gerais do Governo Costa e Silva

O governo de Artur da Costa e Silva, iniciado em 1967 e encerrado em 1969, constitui a segunda fase institucional da ditadura militar instaurada no Brasil em 1964. Situado em um momento de consolidação do regime, seu período expressa a combinação entre tentativas de reorganização institucional, busca de legitimidade política diante da sociedade e endurecimento progressivo diante do aumento das manifestações públicas de contestação. 

O contexto internacional, marcado pela Guerra Fria e pelo fortalecimento de regimes autoritários conservadores na América Latina a partir da década de 1960, influenciou diretamente as diretrizes adotadas pelo governo, que se apoiou na lógica anticomunista, na centralização do poder e em discursos de defesa da segurança nacional.

Esse período também revela a convivência de agendas divergentes dentro das próprias Forças Armadas, pois setores mais moderados buscavam acomodar reivindicações sociais e reduzir tensões políticas, enquanto grupos mais duros defendiam maior radicalização repressiva. A administração Costa e Silva, portanto, encontra-se no ponto de inflexão em que a ditadura militar abandona pretensões de distensão controlada e avança para seu momento mais autoritário, marcado pela edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em dezembro de 1968. Ao mesmo tempo, a economia brasileira apresentava sinais iniciais de expansão, sustentada por investimentos estatais e aumento da oferta de crédito, ainda que acompanhados por desequilíbrios estruturais e restrições sociais.


Características do Governo Costa e Silva:


Restauração parcial do processo político: o governo buscou inicialmente apresentar-se como uma administração mais aberta que a anterior, promovendo alterações na legislação eleitoral e incentivando debates controlados no Legislativo, ao mesmo tempo em que mantinha instrumentos autoritários herdados de 1964.

Centralização do Executivo: a administração ampliou o poder decisório da Presidência, reforçando o domínio do Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário, reforçando a prerrogativa de governar por meio de atos extraordinários e decretos.

Doutrina de Segurança Nacional: o governo incorporou de modo sistemático princípios doutrinários elaborados nas décadas anteriores, que interpretavam o Brasil como um país ameaçado por forças internas e externas, justificando medidas de vigilância, censura e intervenções diretas em instituições civis.

Crescimento das tensões sociais: o período foi marcado pelo aumento de manifestações estudantis, greves operárias e mobilizações culturais, fenômenos que passaram a ser vistos pelo governo como potenciais ameaças políticas.

Ascensão da linha dura militar: setores mais radicais das Forças Armadas aumentaram sua influência na formulação de políticas de segurança, pressionando o governo a adotar medidas mais repressivas e a abandonar tentativas de abertura.


Economia brasileira no Governo Costa e Silva

A economia durante o governo Costa e Silva apresentou importantes nuances. A partir de 1967, o país iniciou uma trajetória de expansão que seria consolidada posteriormente no chamado milagre econômico (1969-1973). Esse crescimento inicial ocorreu em um contexto de reorganização das políticas financeiras, incentivo às exportações e aumento de investimentos em infraestrutura. O governo buscou ampliar a participação do Estado nos setores estratégicos, reforçando empresas públicas e incentivando projetos de transporte, energia e comunicações. A industrialização, iniciada nas décadas anteriores, recebeu novo fôlego com a abertura controlada ao capital estrangeiro e com a criação de mecanismos de crédito subsidiado.

Ao mesmo tempo, políticas de contenção salarial foram aplicadas com o objetivo de reduzir custos de produção e estimular investimentos privados. Esse processo provocou desequilíbrio na distribuição de renda e aprofundou tensões sociais nas áreas urbanas. A inflação, embora reduzida em comparação ao período anterior, permaneceu como desafio, exigindo sucessivas intervenções no sistema financeiro. Essas medidas repercutiram de maneira desigual no país, pois regiões com menor capacidade produtiva continuaram enfrentando dificuldades extrativas e agrícolas. Esse conjunto de fatores revela que o governo Costa e Silva preparou parte das bases estruturais do crescimento acelerado dos anos seguintes, mas sem solucionar problemas sociais persistentes, como desigualdade, baixa remuneração e ausência de políticas amplas de bem-estar.


Política

O campo político do governo Costa e Silva foi marcado por movimentos contraditórios entre abertura parcial e intensificação do autoritarismo. Em 1967, com a nova Constituição, buscou-se conferir aparência institucional ao regime, reafirmando a concentração de poderes no Executivo. O bipartidarismo, mantido desde 1965, continuou estruturando a disputa controlada entre a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), alinhada ao governo, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que ocupava espaço limitado de oposição institucional.

Entretanto, a partir de 1968, a conjuntura política se alterou profundamente. A escalada de manifestações estudantis, grandes passeatas e mobilizações culturais levou o governo a endurecer suas ações. O Congresso, mesmo esvaziado, tornou-se palco de debates que incomodavam setores militares, especialmente após discursos de parlamentares críticos ao regime. A crise política atingiu seu ápice com os episódios envolvendo a Universidade de Brasília, protestos no Rio de Janeiro e São Paulo e a repercussão internacional das tensões internas.

Essa conjuntura culminou na radicalização da linha dura, que pressionou o presidente para adotar medidas mais severas. O resultado foi a suspensão progressiva dos mecanismos de diálogo político, o fechamento de espaços de participação e a implementação de controles cada vez mais rígidos sobre governadores, prefeitos e instituições do Estado. O governo Costa e Silva encerra-se, portanto, como um momento em que as estruturas políticas do regime autoritário se tornam mais densas e menos permeáveis a pressões sociais, consolidando o caminho para o recrudescimento dos anos subsequentes.


Repressão

A repressão durante o governo Costa e Silva intensificou-se gradualmente, atingindo seu ponto máximo com a promulgação do AI-5 em dezembro de 1968. Esse período foi marcado pelo fortalecimento de órgãos de vigilância como o Serviço Nacional de Informações (SNI), responsável por monitorar movimentos sociais, universidades e setores culturais. A censura aumentou significativamente, atingindo jornais, peças teatrais, canções e produções cinematográficas, evidenciando a ampliação do controle sobre a circulação de ideias no país.

Antes mesmo do AI-5, greves operárias foram sufocadas, lideranças sindicais foram perseguidas e manifestações estudantis sofreram repressão direta. A chamada Batalha da Rua Maria Antônia, em 1968, mostrou o clima de violência política e polarização ideológica que marcou o período. No campo cultural, artistas, escritores e intelectuais foram alvo de intervenções constantes, e diversos profissionais enfrentaram restrições ou banimentos temporários de suas obras.

Com o AI-5, o governo adquiriu poderes extraordinários, incluindo a possibilidade de fechar o Congresso, cassar mandatos e suspender direitos políticos por dez anos, além de ampliar a censura e autorizar prisões sem necessidade de justificativa formal. A partir desse ponto, instituiu-se oficialmente um período de supressão das liberdades civis e de fortalecimento dos mecanismos repressivos. A repressão atingiu diferentes setores da sociedade, desde trabalhadores urbanos e rurais até estudantes, jornalistas e religiosos, criando um ambiente que favoreceu o avanço das organizações armadas de esquerda e intensificou o conflito político.



Conclusão

O governo Costa e Silva, situado entre 1967 e 1969, constitui uma etapa decisiva na consolidação da ditadura militar no Brasil. Seu período revela a tensão constante entre tentativas limitadas de institucionalização e o avanço progressivo das práticas autoritárias. A economia experimentou crescimento inicial, mas sustentado por políticas que aprofundaram a desigualdade e limitaram a participação social. A política, submetida a controles rígidos, perdeu gradativamente sua capacidade de mediação, enquanto a repressão se tornou elemento estruturante da governança estatal.

A promulgação do AI-5 simboliza o encerramento de qualquer possibilidade de abertura naquele momento histórico, inaugurando a fase mais dura do regime. De um ponto de vista historiográfico crítico, o governo Costa e Silva evidencia que a ditadura militar brasileira não foi um período de estabilidade e progresso equilibrado, mas uma experiência marcada pela supressão sistemática de direitos, pela imposição de um projeto político autoritário e pela construção de um aparato repressivo que deixou profundas marcas na sociedade brasileira. Essa análise permite compreender que a consolidação das instituições democráticas, após 1985, exigiu enfrentar e reconhecer as contradições e violências desse período, reafirmando a importância permanente da defesa das liberdades civis e da participação política no país.

 

Principais acontecimentos do governo Costa e Silva:


Promulgação da Constituição de 1967: documento que formalizou a estrutura institucional da ditadura militar, reforçando poderes do Executivo e reduzindo garantias democráticas.

Reorganização do sistema bipartidário: manutenção da ARENA como partido de sustentação do regime e do MDB como oposição controlada, preservando uma aparência de disputa política.

Crescimento das manifestações estudantis (1968):
ampliação dos protestos em universidades e grandes cidades, resultado de insatisfação com a repressão, censura e falta de liberdades civis.

Passeata dos Cem Mil (1968): mobilização de grande escala realizada no Rio de Janeiro, reunindo estudantes, artistas, intelectuais e setores da classe média contra a violência estatal e o autoritarismo.

Batalha da Rua Maria Antônia (1968):
confronto entre grupos universitários em São Paulo, refletindo a polarização ideológica e o aumento das tensões políticas.

Fortalecimento dos órgãos de vigilância e censura: ampliação do poder do Serviço Nacional de Informações e da censura prévia sobre a imprensa, o teatro, o cinema e a música.

Recrudescimento da repressão a greves e movimentos sindicais: interrupção violenta de mobilizações operárias e perseguição de lideranças trabalhistas.

Adoção de medidas econômicas de estímulo ao crescimento: reorganização financeira, incentivos às exportações e ampliação do papel do Estado na industrialização, preparando as bases do crescimento acelerado dos anos seguintes.

Escalada de conflitos com o Congresso Nacional: tensões resultantes de discursos críticos ao regime e da resistência de parlamentares, que intensificaram pressões da ala mais radical das Forças Armadas.

Assassinato do estudante Edson Luís (1968): episódio de grande repercussão que desencadeou protestos nacionais e agravou a crise entre o governo e os movimentos sociais.

Edição do Ato Institucional nº 5 (1968): medida que representou o ápice do autoritarismo, permitindo o fechamento do Congresso, cassações, suspensão de direitos políticos e ampliação irrestrita da repressão.

Afastamento de Costa e Silva por doença (1969): episódio que resultou na formação da Junta Militar, demonstrando o esvaziamento das formalidades institucionais e a centralidade das Forças Armadas na condução do regime.

 

 

Infográfico com resumo sobre o Governo Costa e Silva
Infográfico com resumo sobre as características do Governo Costa e Silva.

 

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RESUMO

 

1. O que foi o governo Costa e Silva

- Caracterização geral: período situado entre 1967 e 1969, marcado pela consolidação da ditadura militar.
- Contexto histórico: ambiente internacional da Guerra Fria e fortalecimento do discurso de segurança nacional.
- Estrutura do regime: coexistência entre tentativas de abertura controlada e pressões da ala mais radical das Forças Armadas.


2. Características do governo

- Restauração limitada do processo político: ajustes institucionais, reformas eleitorais e controle contínuo sobre partidos.
- Centralização do Executivo: fortalecimento das prerrogativas presidenciais e redução da autonomia dos demais poderes.
- Doutrina de Segurança Nacional: visão de combate a supostas ameaças internas, justificando vigilância e censura.
- Tensões sociais crescentes: mobilização estudantil, greves e participação de setores culturais.
- Ascensão da linha dura: fortalecimento de grupos militares que defendiam maior repressão.


3. Economia brasileira no período

- Início de fase de expansão econômica: reorganização financeira, incentivo às exportações e aumento do crédito.
- Papel do Estado: ampliação dos investimentos em infraestrutura e fortalecimento de empresas públicas.
- Política salarial: contenção de salários, contribuindo para maior desigualdade social.
- Estrutura produtiva: retomada da industrialização e abertura controlada ao capital estrangeiro.
- Limitações sociais: persistência de disparidades regionais e ausência de políticas amplas de bem-estar.


4. Política

- Constituição de 1967: tentativa de dar aparência institucional ao regime, mantendo caráter autoritário.
- Bipartidarismo: manutenção da ARENA como base governista e do MDB como oposição limitada.
- Conflitos no Legislativo: discursos críticos e tensões entre parlamentares e setores do governo.
- Endurecimento gradual: perda de espaço de diálogo e expansão do controle sobre governadores e instituições.


5. Repressão


- Crescimento da vigilância: fortalecimento do Sistema Nacional de Informações e ampliação do monitoramento social.
- Expansão da censura: controle sobre imprensa, teatro, música e cinema.
- Repressão a movimentos sociais: greves, manifestações estudantis e mobilizações culturais sufocadas pelo Estado.
- AI-5: marco de intensificação da repressão, com fechamento do Congresso, cassações e suspensão de direitos civis.


6. Conclusão

- Consolidação do autoritarismo: período decisivo na radicalização da ditadura militar.
- Desigualdades persistentes: crescimento econômico sem redistribuição e com restrição de direitos.
- Impacto histórico: aprofundamento da violência estatal, limitação de liberdades e fortalecimento de estruturas repressivas.

 

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Por Jefferson Evandro Machado Ramos (professor e historiador graduado em História pela FFLCH-USP)

Publicado em 02/03/2026


 

Fontes de referência:

 

GASPARI, Elio. “A Ditadura Envergonhada”. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 

ARNS, Paulo Evaristo. “Brasil: Nunca Mais”. São Paulo: Edições Loyola, 1985. 



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